2.Olhares isolados

Moro em Botafogo. As imagens a seguir foram registradas em ruas do bairro, nos arredores da estação do metrô, em 25 e 28 de abril, em momentos nos quais aproveitei idas ao mercado e à farmácia, em uma área de quatro quarteirões (algo que evidentemente prolongou meu tempo fora de casa, mas que fiz com redobrados cuidados). Naquele momento, o Rio de Janeiro registrava um nível de isolamento de 80%, mas Botafogo, o segundo pior índice da cidade, 64%, perdendo apenas para Copacabana. Esse número cairia vertiginosamente ao longo das semanas seguintes, e, em 16 de junho, ainda antes do relaxamento das medidas restritivas da Prefeitura, chegaria a 27%, o pior do município desde o início da medição. Como sabemos, a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) a respeito é de um mínimo de 70% para uma evitação consistente da propagação do vírus. E esse desempenho pífio de Botafogo — que não buscarei aqui explicar, nem para o bairro nem para a cidade nem para o país — acaba por lançar luz sobre o efeito simbólico de uma contradição: é fácil ver tanto que minha vizinhança está diferente por conta do isolamento quanto a ineficiência deste mesmo: os espaços estão “vazios”, mas não estão. Há menos gente na rua, mas há gente demais. Tenho mantido uma rotina de trabalho em casa e saídas apenas por necessidade (além do uso de máscara, higienização constante, distanciamento etc.), isto é, tenho procurado seguir a cartilha profilática estabelecida e reconheço o quão afortunado sou por poder fazer isso, mantendo minhas atividades e correndo poucos riscos, o que, sabemos, não é uma opção para muitos. E a possibilidade de manutenção de uma rotina, por mais fora da curva que esta seja, permite manter ativa aquela inquietação nos globos oculares que acaba por tornar as pessoas sociólogas. Nesse sentido, a fotografia — algo que já me acompanha há mais de duas décadas — apareceu neste momento como uma forma alternativa de pensamento, em meio a uma rotina intensa de leitura e escrita (além das famigeradas reuniões virtuais que se tornaram parte dos cotidianos de vários de nós), de modo que a câmera converteu-se em um dispositivo para enxergar melhor aquilo que meus olhos já viam em outras idas às ruas. O que me moveu neste ensaio foi a busca pelo humano em um espaço esvaziado: dos trabalhadores que se viram obrigados a sair para ganhar a vida desafiando a morte às pessoas que saíram por sair, todos eles, ali, estavam, diante de mim, enquadrados. O enquadramento, então, tornou-se um parceiro para melhor ver o ator no social. É como a categoria, nossa parceira como sociólogos para olhar o mundo: com ela tanto separamos quanto juntamos e, como isso, passamos a poder ler o que ocorre. Ao fim e ao cabo, com ela, isolamos coisas — e não é de isolamento que estamos falando? Mas o enquadramento não pressupõe uma mera unificação categorial, como se o objetivo fosse converter pessoas em farinhas de sacos analíticos. Enquadrar, neste caso, é tensionar o outro com o mundo, é ver nele, por meio de seu isolamento estético, uma singularidade que permite a ele justamente contribuir para uma malha, uma trama de agenciamentos. Assim, chama-me atenção que meus fotografados humanos (há no conjunto apenas duas fotos, digamos, ambientais; e seus sentidos falam por si sós) estejam em geral olhando para o espaço — embora alguns olhem para seres próximos, um jornal, um celular, um cachorro, um maço de cigarros, o que não deixa de demarcar uma relação com aquela espacialidade — , como que a avistar algo, procurar algo, decidir como se portar diante de algo. Sim, claro, eles estão na rua, em deslocamento; faz sentido que perscrutem o ambiente para se localizar e se mover mais eficientemente. Mas tenho a impressão de que o punctum — era assim que Roland Barthes chamava o ponto pelo qual o olhar é atraído ao se mirar uma fotografia — aqui esteja na tensão entre olhar e ambiente, entre a agência de si e a agência do espaço. Esses dois polos, então, têm a ver um com o outro: levam em conta a presença um do outro, fazem um ao outro.

Alexandre Werneck

Professor do Departamento de Sociologia e do PPGSA/UFRJ.

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