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Quarentena Diários
2 min readJul 7, 2020

Acordei em 2020 e não era um sonho

Ruas livres para andar de bicicleta, sem perigo

Ar sem poluição

Menos barulho, menos buzina

ônibus e metrô vazios

fácil de achar um lugar para se sentar

Ruas desertas, sem confusão

Mas também, um exército de serventes

para que outros possam comer sem precisar cozinhar, nem limpar ou ir buscar

todos estes pelas ruas, tocando campainhas e interfones,

entregando de tudo, arriscando a saúde

prontos a se retirarem de cena

e serem substituídos por outros, assim que adoecerem

Antecipo um exército de vagantes, errantes

Já sem emprego e sem casa pra morar

passaria a viver pelos bairros,

antes que o próximo foco da doença se espalhasse

e os empurrasse para outro lugar

Quem diria que daqui de casa eu veria

pessoas morrendo aos montes

como num livro de história em que li um dia

justo agora, com tanta comida

mas com muita ganância a ponto de deixar estragar

ao invés de doar a quem precisar

Quem diria que também veria

outros se preocupando em voltar ao normal

tentando transpor o antes na vida de agora

como se fosse possível sonhar

viver o que viviam antes

Mal entenderam

que antes já houve

não há mais

A incerteza é o que há

e se faz capaz de destruir mentes

daqueles que não sabem viver sem planejar

A propósito, tem uns que planejaram bem mal

Gastaram mais com armas do que com hospital

Outros, mais com bots do que com ciência

Ignoram evidências

e agora preferem pagar caro

ferindo a igualdade humana

querem equipamentos para salvar apenas seu povo

que morre aos montes porque não há sistema privado de saúde que aguente

Do que serve um plano de saúde agora?

Fico observando propagandas

Empresas em desespero

Até nas brechas tenta-se encontrar oportunidades de consumo

tudo é oportunidade para mercantilizar

até nas dores do mundo

ofertas de alívios falso, distrações

Lives patrocinadas

Não se quer perder nada

Nenhuma chance de lucrar

Será que os donos dessas empresas e seus acionistas ainda não entenderam

que logo em breve seu dinheiro

nada valerá?

Será que haverá médicos para seu atendimento prioritário subornar?

Ou leitos e equipamentos para os tratar

Não haverá como fugir sair do país, buscando outro melhor para morar

porque eles todos, ah! irão nos barrar!

Por que ainda seguem mandando diariamente projeções

curvas, gráficos, elocubrações

criando novas necessidades

não podem vender o que mais precisamos

como num jogo maluco, incerto, continuam apostando

será que sabem que vão perder?

Porque todos perderão

Se não redistribuirmos riquezas

e repensarmos os salários,

os modelos de serviços prestados tortos, mal-remunerados

informalidade

falta de direitos

horas e horas ocupados

sem tempo para pensar

tudo está ruindo

diante de nossos olhos

é preciso se solidarizar

Para, pensa, medita

Sua vida é o hoje

O que você tem a dar?

Claudia Sciré, doutora em Sociologia pela USP

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