Quarentena Diários
1 min readJul 9, 2020

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Fotografia de Matheus Sena

4.Quarentena

A ansiedade é uma ferida

aberta inflamada, fedida.

Mastigo as flores de camomila

junto com a água fervente.

Espremo o sumo da pressa

Por entre meus dentes

Já nem sei qual é o dia

a semana, o século.

Eu tenho abafando meus urros

afundando a cara no travesseiro

mas o grito já não cabe,

invade a janela dos vizinhos,

se esconde debaixo da mesa

assalta de noite a geladeira.

Eu tenho corrido assustado

corrido cada vez mais rápido

meus trinta metros quadrados.

Escalo as paredes da casa

penduro no muro da frente

sussurro à quem passa na rua

pedaços de cólera incipiente.

Um dia desses e acordei

meio com a cara amassada

com a cabeça inchada,

olhei pro mundo e era tudo

ruína por cima de entulho

escarro por cima de pus.

Eu pus a máscara por cima da barba

mas permaneci deitado,

como se fosse de mim

que não pudesse ser contaminado.

Um dia desses eu me atrasei

pro encontro que marquei

com meus olhos vidrados

no vidro do espelho embaçado

mas não pedi desculpas

quebrei os pedaços e mastiguei

de novo os cacos de mim.

João Pedro Sanson

Mestrando do PPGSA/UFRJ

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