Ciranda da travessia

Saudade é ternura arrefecida na sola gasta do tempo. É o corpo pedindo ferro, medindo o esteio da lucidez que tortura. É aprisionar-se numa gravura, e feito um passarinho desatinado flertar com a portinhola aberta e permanecer tristonhamente, num sem dias, avestruzado.

Desejo é sol irredutível lambendo-te a face. Esbravejando o furor de mais de um milhão de quilômetros, contidos num só enlace. É sentir com as narinas do útero a agonia e a gastura, essa dupla desavergonhada, ebulir para transmutar a quentura. E ver molhar todas as cavidades da ensolarada criatura.

Deserto é o não vivido, a sequidão do não experimentado. É o eco, do eco, do eco que míngua num galho seco amarrado. É o hoje que interroga o ambíguo, que tenta rir do passado, mas que vive de se arvorar a rasgar seus trapos para remontar o amanhã num hálito soprado.

Como querência não é querela, os três deram as mãos e se puseram a dançar ciranda. E vinha mãe, avó, criança, no meio desse desvario, adolescente com boca pintada, mulher com pele em arrepio. Giravam cantarolando e bem no meio do rodopio, o rio disparou para o mar e o mar de volta rumou para o rio.

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Tem juízo, mas não usa (2)

Ai, desassossego teimoso que me pega num roda-pique pelo correr dos dias. Que faz a bússola entre as coxas parecer desnorteada e vazia e taca fogo no mar dos meus pensamentos. E o medo ainda da paralisia, contido na mesa posta pela bolorenta rotina, do acostumar-se a não mais sentir o almíscar da saída.

Juízo sequer mandou lembrança. Vive absorto na quimera da pajelança. Quer mel pra tratar dente cariado, prescreveu banha de porco pra um infartado, deu gravata e caneta a uma criança. Num tarda muito a fazer lambança, pois chora de tanto rir e ri de tanto que chora, abandonou sua velha senhora, disse tchau para a cabeça e pra voltar não tem hora.

Adriana Garuzi

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ.

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